Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Outubro 18 2009

 Andando assim descontente
Triste, de cara fechada
Achou ser mais previdente
Passar a ser vigiada.
E a República assim fez
Com esperança na Psicologia
Foi para o divã desta vez
Tentar nova terapia.
A psicóloga, entendida
Na consulta a recebeu
Quis saber da sua vida
E a República acedeu.
As angústias desabafou
Face às crises sucessivas
Gesticulou e chorou
De voz trémula mas expressiva.
Ajeita o peito desnudo
Aperta melhor a faixa
E esconde o corpo carnudo
No divã onde se encaixa.
Foi longa e atormentada
Toda a sua narrativa
Falou de tudo, coitada
Sem guardas nem comitiva.
Mas do mais que se queixou
Com Freud no pensamento
Foi do povo, que a levou
Ao maior role de lamentos.
E nessa amarga desdita
De séculos tão conturbados
Lembrou Fátima bendita
Todos os transes, os fados.
O povo trá-la inquieta
Em depressão sem brandura
Por saber quanto a afecta

 Tanto doutor sem cultura.
Depois do Sebastião
Tantos reis, tantas Rainhas
De bom ou mau coração
Consumindo-se em ladainhas.
Duques, Condes e Marqueses
Almas brandas ou danadas
Ricos ou arruinados por vezes
Ostentando suas mansardas.
Lutas ferozes, ideologias
Liberais, conservadores
Muitos bastardos e ousadias
Nas intrigas, nos amores.
Josés, Joões ou Maneis
E Antónios nem se fala
As cadeias, os quartéis
Chapéus de coco, bengala.
Desbragada burguesia
Moderados, extremistas
Todos em grande euforia
Poetas, bêbados, fadistas.
Ditadores e democratas
Gente rica na avareza
Na Banca só acrobatas
E uma escondida pobreza.
Para onde vou nunca sei
Sempre assim fragilizada
Meti-me na Europa e ganhei
Tantos subsídios para nada.
Governos se sucedendo
Qualquer deles gasta e se avia
E todo o povo vivendo
Pasmado em demagogia.
Desabafando, coitada
A República, em seu mutismo
Chora a Pátria acorrentada
Ao mito do sebastianismo.
- O que é que faço doutora?

 

Tudo tento e não acerto…
- Tenha Fé, virá a hora
De voltar esse Encoberto!

 

Mário Matta e Silva

 

publicado por cantaresdoespirito às 23:57
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 05:06

Outubro 18 2009

 

Infringiste várias regras

Deste azul quadrado

Belo e monótono

  • interrompeste a calma nocturna

  • o silêncio pesado da meia-noite

 Desenhaste hipérboles sonoras

  • pensamentos telefonados

À procura de apoio


Fizeste cair minutos de pedras

Sem o sinal de trânsito correspondente

Brincaste ao jogo perigoso dos pseudónimos

 

Enumeraste Bartok.................

A música francesa.................

 

Decoraste a noite de ambivalências:

Feriste com os espinhos do cardo

Ao ofereceres a dádiva da flor

 

Contaste depressões

Falaste de pensamentos

 

A melancolia do teu isolamento

Convenceu a perplexidade da minha reserva

 

Sentiste a necessidade de gostar

Decidiste enfrentar o espartilho do momento

Disparaste contra a dúvida

 

Acertaste na doçura

De um sorriso quase lívido

Que não viste

Desaguado nesta falsa flor

  • companheira imperturbável de todas as noites
     

    O diálogo gaguejou bruscamente...................

 Sentiam-se gotas a deslizar

pelo fio desta conversa ao longe
 

E as palavras

 

Eram pérolas........................

Eram espelhos...................

 

O instante pesou......

Quando me beijaste

O telefone emudeceu

Ficou o fantasma silencioso

Da tua silhueta

A impor-me esta impressão

De permanecer só.

 

José Manuel Veríssimo

publicado por cantaresdoespirito às 23:51
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 05:09

Outubro 18 2009

 Estatura média mas esguia

ainda jovem e bonita

cabelo brilhante, solto, tom de cobre

corpo elegante em roupas baratas.

Personagem que vive numa estranha casa fria

luxuoso local de vagabundos

bairro de nobres vivendas em chapa e ferrugem

tristes, solitárias, perdidas no mundo.

Os seus alicerces são ferros de pneus roubados

por outros desgraçados

iguais aquela mulher de fuligem .

Bancos desventrados e furados

molas partidas

esponjas caídas...

Ela, estendia roupa pessoal

numa corda improvisada

esticada numa rede em vez de parede

(absurdo e surrealista estendal).

Grito fundo, quase selvagem

mãos trémulas de raiva espetando a mola:

- Basta, não quero mais esmola!

Atirava impropérios e gesticulava sozinha

subindo na sua revolta:

- ... Direito a pequeno almoço, almoço e jantar

e cinco euros por dia...

(outra oportunidade assim não volta).

Atirou os alguidares ao chão a esbracejar

deu um sacão numa cadeira de plástico

com almofada para à noite se sentar e poder imaginar

que a sua casa era um palácio de cristal

e o cemitério de automóveis um jardim

onde nessas horas, afinal

se sentia princesa de folhetim.


Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 23:37
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 04:58

Outubro 18 2009

 

Abro a janela mitigando

a fria luz.

O dia está quase morto

assim como eu.

Oiço sons que não são meus

porque são de outros.

Pela abertura entra vida

muito sofrida.

 

Abro a janela mitigando

alguma paz.

Esbarro num enorme prédio

a duas cores.

Dói-me um gato abandonado

sempre a miar.

Crispo as mãos, rezo, imploro

e amarga choro.

 

Abro a janela mitigando

consolação.

Árvores verdes acenam

indiferentes.

Roupa a secar nas cordas

é vida morta.

Ecoam gritos p'lo ar

num trovejar.

Abro a janela mitigando

uma carícia.

O vento sopra danado

e desabrido.

Meu corpo frio estremece

e ardo por dentro.

Sinto uma grande agonia

morreu o dia.


Liliana Josué

publicado por cantaresdoespirito às 23:22
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 04:53

Outubro 18 2009

Ordeno as gotas de água

feitas de sal ou de mel.

A chuva que cai não tem sentido.

Não apaga o fogo,
só molha o meu telhado…

As tempestades que respirei,

os olhos que tacteei,

difundo no céu de meu ser.

Nem o vento é consciente

nem a tempestade me apavora!

Ainda lhe recordo o brilho…

Desconhecida e indecifrável

amedrontada e rala

rala, rilha, amofina

e rola descendo o rosto…

A saudade da vida

espera-me,

ao lado de um mealheiro azul…


 

Há dias que se afiguram

mais brilhantes que outros

ou mais baços que outros…

Partiste avô!

Afinal…

É o vento que agarra a semente

e a leva para uma terra lavrada…

 

Edite Gil

  

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 23:15
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 04:35
Tags:

Outubro 18 2009

 

Vós que da antiga Hélade comandaste

Os destinos da terra, oh sábia Gaia

Aos que hoje a lideram alertaste

Da impendência do perigo que ela raia

 

Mas de nada os clamores dos que inspiraste

Parecem mais valias recolher;

Sucumbem as florestas ao desgaste

E em todo o mundo os fósseis estão a arder

 

Ganham jus da Bíblia as profecias

Que de castigos tecem extenso rol

P’la quebra da aliança, diz-nos Isaías

 

Até que o quarto anjo enfim derrame

A taça vingadora sobre o sol

E o apocalipse então se proclame

 

Eugénio de Sá

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 23:07
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 04:55

Outubro 18 2009

 

O orvalho deslizando no meu rosto

Serenidade… pedem os meus olhos

Ao sentirem minh’alma entre escolhos

Nos restos escarlates do sol-posto

 

Sei, sou minha sombra e o perfil

Desta viagem que encetei, menina

De tranças pretas, uma franja traquina

Em desalinho, na fronte mais gentil

 

Fui mulher, flor de sonho, rapariga

Soube do beijo o néctar prometido

Que de saudades me afaga a boca

 

Resta desse amor uma cantiga

Memória linda desse tempo ido

Serenamente o canto, embora rouca

 

Maria Zabeleta

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 23:04
editado por mariaivonevairinho em 20/10/2009 às 03:40

Outubro 18 2009

O sol se pôs na minh’alma sombria!

- Nem mesmo um colibri que aqui defronte

Numa rosa, esvoaça de alegria

E fica adocicando o horizonte,

Dos negros pensamentos me desvia.


 Que tristeza, meu Deus, que dor intensa

Saber de mais não ver minha adorada

Quanto é pesado o fardo da sentença

Que proferiste, quanto inesperado

Foi este golpe na minha benquerença!


- Se mais não cabe na minha desdita

Pedir-Te que o caminho Lhe ilumines,

E que essa luz imensa Lhe permita

Alcançar o destino que Lhe ensines

No sideral amor em que acredita;


Então que se esvaziem de sentido

Outros pedidos que queria fazer-Te;

Que eu mais não valha do que um ser sofrido,

Que eu mais não faça do que agradecer-Te,

Que eu mais não queira do que ser esquecido!


 Eugénio de Sá

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 23:01
editado por mariaivonevairinho em 20/10/2009 às 03:40

Outubro 18 2009

 

Já chegou a Primavera,

Veio com ela a poesia.

Veio o sol que se espera

Ao romper de cada dia.


Trouxe flores e passarinhos,

Leitos de água a correr,

Às árvores os rebentinhos

Para seus frutos nascer.


Trouxe alegria e mais cor,

Aos jardins dos namorados.

Trouxe mais carinho e amor

Sonhos de príncipes encantados.


 Trouxe papoilas, malmequeres,

Lírios roxos nos trigais.

Trouxe ao campo afazeres,

Também festas e arraiais.


 Pois assim a Primavera,

Como sempre voltou de novo.

Para dar a quem a espera

A alegria do renovo.


Muito mais nos vai trazer,

Nesta então sua passagem.

Pois de certo não vai esquecer

De dar ao povo nova coragem.


 Já chegou a Primavera,

Que algum tempo irá ficar.

Como sempre o fizera

Quando nos veio visitar.


 Manuel Carreira Rocha

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 22:57
editado por mariaivonevairinho em 20/10/2009 às 03:43

Outubro 18 2009

Sinto o ocaso no corpo

Sinto o tédio da tarde

Sinto já não ser a flor

A pétala do amor

Sou árvore outonal

Vendaval


 Sinto o meu fruto ceder

Sinto a adaga no ventre

Sinto que o tempo anuncia

Hesitante ventania

Sou árvore outonal

Vendaval


 Ninguém sabe, sou mulher

Ainda e sempre a querer

Amar, porque sou de Deus

E Deus é amor

Enquanto a vida teimar

A embebedar-se em mim

Hei-de mordê-la de manso

Eu sou assim

Se me contemplo

Eu sou um templo

Os meus versos cantarão

P’rálem de mim

E dirão quando perdida

Me dei à vida

 

Maria Zabeleta

 

Postado por Liliana Josué -Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 22:54
editado por mariaivonevairinho em 20/10/2009 às 03:50

Outubro 18 2009

Livro que convém usá-lo

E lê-lo, com fé ardente;

Assim caminha São Paulo

Para a casa da minha gente!


Se, quando o livro comprar,

Na estante for guardá-lo

Melhor, é ter de pensar,

Livro que convém usá-lo.


Traga-o sempre consigo

Porque é um livro diferente;

Mostre a quem for seu amigo

E lê-lo com fé ardente.


Pois, num ano a caminhar,

Viver com ele e estimá-lo

Pronto a evangelizar

Assim caminha São Paulo.


Depois de o ler e estudar

Decerto fica contente.

E São Paulo vai habitar

Para a casa de muita gente.

 

Armando David

 

 

Postado por Liliana Josué – Secretária da APP

publicado por cantaresdoespirito às 22:50
editado por mariaivonevairinho em 20/10/2009 às 03:46

Outubro 18 2009

 

Tomei a liberdade de colocar aqui este magnífico soneto da nossa amiga e sócia Odete Nazário

 

“Amor é fogo que arde sem se ver”
é a força do mar dentro de nós
é força que a montanha faz mover
é descobrir que nunca estamos sós.

Amor é um poema que se escreve
ao som duma sonata de Chopin
enquanto sobre o linho branco e leve
se estende a luz difusa da manhã

é mergulhar no fundo dum olhar
perder-se na vertigem das correntes
e afastar as margens, navegar

na imensidão de sonhos transparentes;
por entre o sol e a lua dos instantes
amor é o farol dos navegantes!

OdeteNazário

publicado por palavrasaladas às 18:35
editado por mariaivonevairinho em 19/10/2009 às 04:22

Este blogue está aberto aos co-autores e Poetas Amigos de Maria Ivone Vairinho
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